Publicado por: protouro | 27 de Agosto de 2015

Memória do Pranto

É o título de um artigo publicado em 2010 no jornal espanhol “El País” da autoria do escritor e jornalista catalão Francesc González Ledesma (1927-2015) .

Francesc González Ledesma

Mais um testemunho da brutalidade do espectáculo tauromáquico.

” Memória do Pranto

Perdoem se começo com uma confidência pessoal: eu, que sou contra touradas conheço a tauromaquia. Durante anos quando me acolheram em Saragoça durante o período pós-guerra dei-me quase diariamente com Celestino Martín que era empresário da praça de touros. Tal permitiu-me conhecer os “grandes” da época: Jaime Noain, El Estudiante, Rafaelillo, Nicanor Villalta. Permitiu-me também conhecer, para meu pesar, o mundo das touradas: bater com sacos de areia num animal prisioneiro para o quebrar, o largo jejum substituído pouco antes da “fiesta” por comida excessiva para que o touro se sentisse cansado, a técnica de o capotear repetidas vezes na arena para o esgotar… Se algum leitor vai à praça peço-lhe que observe o esgotamento do animal e como respira e isto antes de começar.

Vi as puyas tive-as na mão, senti-as. Quem pague para ver como a um ser vivo e nobre lhe cravam as mesmas deveria pedir perdão à sua consciência e pedir perdão a Deus. Quem é capaz de dizer que as mesmas não dilaceram? Quem é capaz de dizer que não causam dor? Mas claro o toureiro, quer dizer o “artista” necessita proteger-se. A pica destrói os músculos do pescoço e a partir daí o animal não pode mover a cabeça e somente consegue investir em frente. Assim o “famoso” sabe por onde é que vão passar os cornos e acercar-se depois como um herói manchando-se com o sangue do lombo do animal a maior glória da sua valentia e arte.

puya1

Dei-me conta na minha ingenuidade de jovem ( os ingénuos conseguem ver a verdade) que o touro era o único inocente que estava na praça e que não só buscava a saída da arena de suplício como por vezes em desespero se lançava entre barreiras. Vi-o sofrer estocadas e estocadas, porque quase nunca se mata à primeira e ficou-me na memória um pobre touro gemendo no centro da arena com o estoque meio cravado pedindo uma piedade inútil. O animal estava a pedir piedade…! Tal permaneceu na memória secreta que todos temos, a minha memória do pranto.

E nessa memória do pranto está o horror das bandarilhas negras. A um pobre animal manso cravaram-lhe essas bandarilhas com explosivos que faziam saltar pedaços de carne e as pessoas pagavam para ver.

Todo aquele que frequenta uma praça deveria fazer uso do sentido de igualdade que todos temos e dar-se conta de que vai ver um jogo de morte e tortura com um único perdedor: o animal. O perigo do toureio, para além de imoral como espectáculo, é efectivo mas se para além disso ainda tivessemos que pagar para ver morrer um homem não faltariam leis para proibir a “fiesta”.

Gente douta diz-me: estás equivocado isto é uma tradição. Certo. Porém gente douta recorda-me: tínhamos a tradição de queimar vivos hereges em praça pública, executar pessoas com um garrote, escravatura, educação à paulada. Todas essas “tradições” foram eliminadas à base de leis, cultura e valores humanos. Não haverá uma lei para proibir esta última tortura pela qual antes demais pagamos?

Perdoem este velho jornalista que ainda sabe olhar os olhos de um animal e não perdeu a memória do pranto”.

Se bem que os algozes tenham deixado de usar bandarilhas com explosivos e sacos de areia (os ditos cujos foram substituídos por drogas muito mais eficazes), a crueldade e a violência do espectáculo essa continua e para gaúdio de uns quantos um animal continua a ser violentamente torturado e morto.

Prótouro
Pelos touros em liberdade


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias