Publicado por: protouro | 6 de Julho de 2012

Tourada e Insensibilidade

Num artigo publicado ontem no Expresso, Daniel Oliveira afirma que para partes significativas da população de algumas regiões do País, a tourada faz parte da sua identidade cultural.

Não podemos aceitar que a tortura de um animal numa praça pública possa ser considerado um acto cultural.

Porque no dia em que aceitarmos que a tortura é cultura, então teremos que aceitar que práticas que hoje em dia são condenadas pela maioria dos cidadãos do mundo, são cultura. E damos-lhe somente 2 exemplos: a lapidação de mulheres adúlteras em certos países faz parte da identidade cultural desses países, a excisão feminina faz parte da identidade cultural dos povos que ainda hoje a praticam.

Não nos venha dizer que não se podem comparar as situações porque podem e devem ser comparadas quando o que está em causa é o sofrimento.

O facto de aceitarmos ou tolerarmos a tortura de um ser vivo faz de nós pessoas insensíveis à dor alheia. O problema dos que defendem a tauromaquia é precisamente a insensibilidade e o facto de não aceitarem que também são animais. Comunicamos, escrevemos, pintamos, dirigimos países, etc, mas continuamos a ser animais e em termos de sentimentos e dor não nos diferenciamos dos animais não humanos.

Enquanto vocês defensores desta incultura não conseguirem aceitar e perceber esse facto, nunca iremos a lugar nenhum nem mesmo através do que você refere como confronto cultural.

E assim sendo, só existe uma via para acabar com este sofrimento gratuito, a lei. Só proibindo as touradas por lei se acabará com o bacanal de tortura que grassa neste país.

Os projectos de lei em questão são louváveis e devem ser aplaudidos porque por exemplo, no caso do financiamento público, todos os contribuintes pagam quer aceitem ou não as touradas. Não podemos admitir que cidadãos que são contra essa prática sejam obrigados a pagar com os seus impostos algo que não aceitam.

Citou o exemplo francês  que mais não é que uma hipocrisia, uma vez que  a lei francesa estipula que os crimes praticados contra os animais são puníveis com multa e prisão em todo o território, e depois abre uma excepção para  as touradas nas pouquíssimas regiões onde exista uma prática ininterrupta; algo verdadeiramente vergonhoso, tal como Barrancos.

A única coisa em que realmente concordamos consigo é a nota final do seu artigo de opinião, nada mais.

Prótouro

Pelos touros em liberdade

A tourada e o bom senso
Daniel Oliveira
Quinta feira, 5 de julho de 2012

Não vou aqui, mais uma vez, discutir o que penso da tourada, do que ela significa para as culturas raianas e do sul do País e que têm na relação com o touro um elemento fundamental da sua identidade. O debate fica quase sempre demasiado quente e irracional para ser produtivo.

O Bloco do Esquerda (pela mão de Catarina Martins, uma das deputadas que mais respeito pelo excelente trabalho que tem feito na área da cultura) e os “Verdes” propuseram a proibição da transmissão de tourada na RTP e o fim dos apoios públicos – de autarquias incluídas, imagino eu – aos espetáculos tauromáquicos. Discordo. E a minha discordância é independente do que penso sobre a tourada que, como já escrevi mais do que uma vez, é diferente da posição destes dois partidos. A minha discordância tem a ver com a forma como penso que devem ser dirigidos os serviços do Estado.

Primeiro: não penso que a programação da RTP deva ser determinada, avulso, pelo Parlamento. Cabe ao poder político definir objetivos genéricos para o que deve ser o serviço público de televisão e criar novas regras para a nomeação do conselho de administração da rádio e televisão do Estado. Como, aliás, o Bloco de Esquerda tem defendido. Ir enxertando na lei da televisão esta e aquela proibição (ou ir alargando proibições que já existem), esta e aquela recomendação, é um mau princípio legislativo que vai contra as posições que o próprio Bloco de Esquerda tem defendido para a autonomia da RTP face ao poder político.

Segundo: deve o poder local manter uma relação próxima com as suas populações. É impensável que as câmaras municipais de Barrancos ou de Vila Franca de Xira, só para pegar em dois exemplos, não se envolvam nas principais festas locais. Qualquer lei que assim o determinasse seria naturalmente contornada por estas autarquias. Porque a uma lei não bastam as suas intenções. É preciso que seja minimamente aceitável para a maioria da população a que se aplica.

Quem, por forte convicção, quer acabar com a tourada – demanda que não acompanho, mas aceito como legítima – tem de seguir um caminho mais difícil, mas mais seguro: o do confronto cultural. Qualquer lei que a proíba, diretamente ou através de outro tipo de constrangimentos – de divulgação ou financiamento -, está condenada ao fracasso enquanto para partes significativas da população de algumas regiões do País a tourada faça parte da sua identidade cultural.

A França, ao que sei, encontrou uma solução inteligente: tem legislação específica para o sul do país, onde a tourada está fortemente enraizada. Parece-me um compromisso aceitável.

Escrito isto, acho lamentável que o debate sobre este assunto acabe quase sempre, como acabou numa recente audição pública promovida pelo Bloco de Esquerda (por comportamento desrespeitoso dos defensores da tourada), em insultos. Nem a tourada pode, como já vi num inenarrável anúncio de um movimento de defesa dos animais, ser comparada a maus-tratos a mulheres praticados em alguns países, nem as propostas do Bloco de Esquerda e dos “Verdes” são “fascistas”, como disse uma associação de aficionados. Com um debate um pouco mais sereno sobre este assunto poderiam ser encontradas soluções equilibradas. Ainda não parece ter chegado esse momento.

Nota final: o único argumento que nunca aceito é o de que “há outros assuntos mais importantes”. A natureza deu aos humanos a capacidade de se preocuparem e resolverem vários os problemas ao mesmo tempo. A crise não suspende toda a realidade que exista para além dela.

http://expresso.sapo.pt/a-tourada-e-o-bom-senso=f737392

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